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Aventura em alto-mar

5 de novembro de 2018 Nenhum comentário

Por alunos dos 4ºs anos A e B da Beacon School

A mãe de Aldi, Herlina Bora, o recebe no aeroporto com uma camiseta do desenho animado Doraemon. Foto: Acervo pessoal

Mais de dez navios passaram pela pequena jangada de madeira onde estava o jovem indonésio Aldi Novel Adilang, de 19 anos, no Oceano Pacífico, mas nenhum parou. Ao avistar o 11º, Aldi lembrou do conselho de um amigo e, em vez de gritar “por favor”, em indonésio, pediu aos berros “ajuda”, desta vez, em inglês. Os gritos fizeram com que o navio MV Arpeggio, do Panamá, desse meia-volta e tirasse o garoto do mar depois de 49 dias à deriva.

Desde os 16 anos, Aldi trabalha acendendo lâmpadas para atrair peixes em uma cabana de pesca, conhecida como rompong, a 125 de quilômetros de distância da praia. Em julho, os ventos fortes soltaram a corda que prendia a jangada a um barco.

Aldi já havia ficado à deriva três vezes, mas, em todas elas, o dono do barco conseguiu resgatá-lo. Desta vez, ele teve que sobreviver se alimentando dos peixes que pescava e sugando água do mar das roupas para diminuir a ingestão de sal.

Aldi passou por uma série de exames depois de ter sido resgatado. Foto: Reprodução.

O navio que resgatou Aldi o deixou no Japão, país que ele só conhecia por desenhos animados na TV. Depois de fazer amigos e conhecer um pouco da cultura local, o jovem foi acompanhado por funcionários do Consulado da Indonésia no Japão, em 8 de setembro, na volta a Manado, sua cidade natal.

Aldi contou os detalhes da aventura em alto-mar via WhatsApp, respondendo perguntas dos alunos dos 4ºs anos A e B da Beacon School. Confira!

Como você se sentiu quando percebeu que estava à deriva?
A princípio eu não tive medo porque pensei que o dono do barco iria me salvar, como aconteceu nas outras três vezes em que fiquei à deriva no mar. Mas não foi assim.

Aldi é encontrado em sua jangada pelo navio MV Arpeggion. Foto: Tripulação do MV Arpeggion

Você viu alguma coisa estranha ou assustadora nesses 49 dias?
Havia vários peixes no mar e, em um momento, um tubarão começou a me seguir. Ele era tão grande que parecia pesar 100 quilos. Isso porque só vi metade do corpo dele! Nessa hora senti medo e desespero, mas meu entusiasmo voltou depois de ler a Bíblia, rezar e cantar músicas gospel.

O que você comeu e bebeu durante todo esse tempo?
A comida que estava no barco só durou uma semana. Quando acabou, comi peixes que eu mesmo pescava para cozinhar ou assar. Para acender o fogo, eu tirava pedacinhos de madeira do barco. De vez em quando, eu também comia peixe cru para economizar as madeirinhas – se eu tirasse tudo, o barco poderia afundar. Bebi água da chuva e, às vezes, do mar. Para diminuir a quantidade de sal da água, eu mergulhava minha roupa no mar e depois sugava.

Aldi foi salvo por um navio que iria para o Japão. Foto: Reprodução.

Como o navio conseguiu encontrar você?
No dia 31 de agosto, eu vi um navio passando e pedi ajuda. Eu gritei tolong [por favor, na língua indonésia], mas ninguém prestou atenção, mesmo a uma distância de apenas 1,5 quilômetro. Aí me lembrei de uma conversa que tive com um amigo, que também ficou à deriva. Ele me disse: “Se você gritar tolong, ninguém vai entender o que está acontecendo, mas se gritar help [ajuda, em inglês], as pessoas vão ficar alertas”. Eu gritei help e, de repente, o navio virou e me salvou.

Houve outras tentativas de resgate antes?
Dez navios passaram por mim nos primeiros dias e, depois disso, não apareceu mais nenhum barco até o navio MV Arpeggio, com a bandeira do Panamá, me resgatar.

O navio deixou você no Japão. Você já conhecia o país? O que achou?
Conheço o Japão desde pequeno porque é onde mora Doraemon [um gato-robô popular de um desenho animado do Japão], mas nunca havia estado lá de verdade. Os japoneses são muito amigáveis e cuidaram muito bem de mim. Eles usam hashi [palitos de bambu] para comer, mas eu comi com as mãos porque não conseguia manuseá-los. O senhor cônsul me deixou boas lembranças do Japão. Ele tirou fotos minhas em lugares com paisagens lindas.

Você pretende continuar trabalhando em rompong depois de tudo o que aconteceu?
Meu trabalho era apenas instalar as luzes para que os peixes se juntassem sob elas no barco de pesca. A luz também servia para que outros navios vissem meu barco. Trabalhar no mar em uma jangada é divertido, mas também muito arriscado. Não quero mais trabalhar nessa área por causa do trauma que passei. Planejo continuar estudando e alcançar meu objetivo de ser soldado das Forças Armadas.

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição 123 do Joca. 

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