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Conheça dois refugiados da Segunda Guerra Mundial

20 de junho de 2019 3 comentários
Andor Stern e Sion Turkie contam sobre as suas histórias como refugiados na Segunda Guerra Mundial. Arte: Ana Beatriz Pádua.

Andor Stern e Sion Turkie contam sobre suas histórias como refugiados na Segunda Guerra Mundial. Arte: Ana Beatriz Pádua

Por Helena Rinaldi

Conflitos, guerras e perseguições obrigaram mais de 70 milhões de pessoas a deixar seu lar até 2019, segundo dados divulgados pela Acnur (Agência da ONU Para Refugiados), em 19 de junho, um dia antes do Dia dos Refugiados.

Desse total, 41,3 milhões são deslocados internos, ou seja, mudaram-se para outras cidades em seu próprio país, e 25,9 milhões estão refugiados em outras nações – 3,5 milhões ainda tentam ter sua situação de refúgio reconhecida pelos países para onde se mudaram.

Organizações de proteção aos refugiados, como a Acnur, surgiram logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando ocorreu um dos maiores fluxos de vítimas de deslocamentos forçados da história. No período, 40 milhões de pessoas ficaram deslocadas na Europa após serem obrigadas a sair de onde moravam.

Neste dia 20 de julho, conheça a história de dois refugiados da Segunda Guerra Mundial que hoje vivem no Brasil.

Confira os trajetos feitos por Andor e Sion, judeus que se refugiaram durante a Segunda Guerra Mundial para fugir de perseguições, e números sobre os refugiados pelo mundo. Arte: Ana Beatriz Pádua

A perseguição na Segunda Guerra Mundial

Andor Stern foi o único brasileiro que sobreviveu ao Holocausto judaico (a morte de milhares de judeus pelo governo nazista da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial – entenda mais abaixo). Andor nasceu no Brasil, mas se mudou para a Índia quando tinha apenas 2 anos.

Meu pai era médico e trabalhava em Nova Lima, em Minas Gerais. Como lá praticamente só existiam minas, as pessoas viviam em uma situação muito difícil e enfrentavam muitas doenças”, diz em entrevista ao Joca.

Por causa do cenário complicado em Minas Gerais, a mãe de Andor decidiu viver com um irmão em São Paulo, onde Andor nasceu. “Meu pai queria uma vida familiar, com a mulher e o filho juntos, e conseguiu uma transferência em Mumbai, na Índia”, explica.

Andor, aos 2 anos, no Brasil. Foto: Arquivo pessoal

Quando o contrato de trabalho na Índia acabou, os pais de Andor decidiram ficar por um período na Hungria, na Europa, onde moravam os avós do entrevistado. “Na época, os judeus eram perseguidos lá, mas ninguém achava que seria tão grave porque o antissemitismo [ódio contra os judeus] sempre ocorreu na Europa”, conta.

Até mesmo na escola os judeus enfrentavam dificuldades: “Sofria bullying todos os dias: meus colegas me chutavam, pisavam, me batiam e cuspiam em mim”, lembra Andor. “Ao mesmo tempo, minha mãe falava para eu me acalmar, porque ela realmente acreditava que aquilo ia passar.”

Andor e a mãe, Julia. Foto: Arquivo pessoal

Mas a situação dos judeus ficou cada vez mais difícil durante a guerra. Andor foi mandado para a Polônia e, depois, para a Alemanha, tendo como destino os campos de trabalho forçado. Nesses lugares, os judeus quase não recebiam comida nem água e sofriam agressões constantes dos soldados alemães.

“Fui libertado pelos norte-americanos e fiquei mais três anos na Europa, mas voltei para o Brasil em 1948”, conta. “Meu objetivo sempre foi voltar para o Brasil, porque aqui eu nunca tinha sofrido perseguição. Este é o único lugar em que eu fui inteiro, porque mesmo hoje os judeus sofrem preconceito ao redor do mundo”, completa.

Andor Stern em 2019. Foto: Helena Rinaldi

A Europa não foi o único lugar onde os judeus foram perseguidos. Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, muitos dos que moravam em nações da Ásia também tiveram que sair de seu país em busca de um lugar que os acolhesse.

Foi o que aconteceu em com Sion Turkie, que saiu da Síria, onde morava, aos 6 anos. “Um dia, começou um boato de que o governo planejava matar todas as crianças judias, e o clube judaico de Damasco, cidade em que nasci, reuniu-se e decidiu que era melhor que as crianças saíssem naquela mesma noite”, relata. “Meus pais não conseguiram fugir junto por causa do trabalho, mas eles decidiram que era melhor eu e meus irmãos irmos logo, mesmo que fosse a pé.”

Sion conta que ele e o irmão viajaram com aproximadamente mil crianças durante a noite, já que havia risco de serem descobertos se fizessem o trajeto durante o dia. Depois de uma semana, chegaram a Tel Aviv, atual segunda maior cidade de Israel.

Sion em 2014, no Brasil. Foto: Arquivo pessoal

Mas as perseguições continuaram. Quando o pai de Sion, David, chegou em Tel Aviv para buscá-lo, eles foram para a cidade de Beirute, no Líbano, onde David foi preso. “Ele tinha sido acusado de espionar o povo libanês, que era uma desculpa muito usada pelo governo para prender os judeus”, diz Sion.

Após um ano preso, David foi solto e a família inteira partiu para a Inglaterra, que era um lugar mais seguro para os judeus, quando a Segunda Guerra Mundial já tinha acabado.

Mais tarde, na década de 1970, após se casar e ter filhos na Inglaterra, Sion decidiu tentar a vida no Brasil, onde morava uma parte da família da esposa. Ele se mudou para São Paulo, onde vive até hoje.

Sion Turkie em 2019. Foto: Arquivo pessoal

Uma Estrela na Escuridão

O livro conta a história da vida de Andor. Foto: Divulgação.

Por ser o único brasileiro sobrevivente do Holocausto, a história de Andor comoveu tantas pessoas que até ganhou um livro sobre sua vida. Em entrevista ao Joca, o historiador Gabriel Pierin conta que decidiu escrever o livro porque o tema dos refugiados é cada vez mais atual.

“Relatar uma história como a de Andor, que poucas pessoas conhecem, possibilita que mais gente tenha acesso a ela e se conscientize do mal que o ódio faz, porque ele está presente até mesmo em discussões do dia a dia.” Segundo ele, dessa forma, as pessoas passam a se sensibilizar mais com os problemas dos outros.

“Assim, as pessoas podem entender que a violência está muito mais próxima do que a gente imagina, porque, mesmo sem querer, acabamos herdando alguns preconceitos que não deveríamos ter”, diz Gabriel.

Entenda a Segunda Guerra Mundial
A guerra começou quando a Alemanha invadiu a Polônia, em 1939. O principal governante da Alemanha, Adolf Hitler, defendia que o povo alemão, espalhado pelo continente europeu, ficasse unido em um só território.

Por isso, outros povos que não eram alemães começaram a ser perseguidos no país. Isso aconteceu principalmente com os judeus (pessoas que praticam o judaísmo, religião que segue os ensinamentos de um livro chamado Antigo Testamento ou Torá), ciganos (um povo que normalmente não possui habitação fixa), pessoas negras e indivíduos com deficiência. A morte de milhares dessas pessoas ficou reconhecida na história como Holocausto.

Fontes: Acnur e IKMR.

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Conheça a história de 5 crianças refugiadas no Brasil.
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Confira aqui o que torna alguém um refugiado, quais são os seus direitos e deveres no Brasil, quantos são, de onde vêm e para onde vão.

3 comentários

  1. PIETRA CORREA says:

    adore!!!!!

    1. PIETRA CORREA says:

      amei!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Júlia Guimarães de Toledo says:

    muito interessante

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