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Luta por igualdade

24 de agosto de 2018 1 comentário

Steve Kikudi, 20 anos, foi entrevistado por Giovanna C., 11 anos: ele estuda direito na FGV e sonha em trabalhar na ONU. Arte: Ana Beatriz Pádua.

Giovanna C., 11 anos

A leitora Beatriz C., de 8 anos, entrevistou o congolês Steve Kikudi, de 20 anos, refugiado no Brasil, para a seção Repórter Mirim da Edição 117 do Joca.

Steve Kikudi, de 20 anos, nasceu na cidade de Kinshasa, na República Democrática do Congo, e passou grande parte da infância em Johannesburgo, na África do Sul, onde estudou ciência política. Decepcionado com a corrupção do país, voltou ao Congo para estudar literatura francesa e filosofia negro-africana, mas não conseguiu se livrar dos problemas políticos. Em 2013, o pai de Steve, deputado federal de oposição ao governo, foi preso após protestar contra o presidente, que tentava se manter no poder mesmo após o fim do mandato.

O presidente continua governando o país, o pai de Steve fugiu e o juiz responsável pelo caso decidiu condenar Steve no lugar dele. A mãe, professora de relações internacionais, passou a buscar um país em que o filho pudesse se refugiar da perseguição. O Brasil aceitou o pedido de asilo e Steve se mudou para cá – sozinho e sem saber falar português.

Depois de sofrer preconceito por ser negro e até ser ameaçado de morte em um abrigo para jovens em São Paulo, Steve conseguiu dar a volta por cima. Hoje, ele estuda direito na Fundação Getulio Vargas (FGV) e sonha em trabalhar na Organização das Nações Unidas (ONU) para acabar com a injustiça nos países africanos. Confira mais sobre a história dele na entrevista que Steve deu à nossa repórter mirim Beatriz C., de 8 anos.

Como foi sua viagem?
Eu era adolescente – tinha 16 anos – e estava sozinho dentro de um avião, deixando meu país para ir a outro, sobre o qual eu não sabia nada a respeito além da fama do futebol. Foi legal porque saí do Congo para fugir da perseguição, mas ruim porque tive que deixar minha família.

Você sabe onde está seu pai?
Não sei se ele está vivo ou não. Minha família não teve mais notícias depois que ele fugiu.

E a sua mãe?
Ela continua no Congo porque não pode mais viajar. O passaporte dela foi confiscado. O governador do Kinshasa falou que, como eu saí de lá, minha mãe deve ficar no país até o dia em que eu voltar. Minha irmã está em Paris, na França, onde tem uma bolsa de estudo de moda. Então, minha mãe está sozinha.

O Brasil é muito diferente do seu país de origem?
Sim. Primeiro, o Brasil é socialmente distinto, aqui tem muito racismo. No meu país, não, porque a maioria da população lá é negra. Politicamente, os dois são parecidos por causa da corrupção. Mas, enquanto aqui tem eleição, no Congo não tem mais porque o presidente quer continuar no poder. Joseph Kabila [presidente da República Democrática do Congo desde janeiro de 2001] não tem mais força política dentro do país porque tem muitos opositores. Se as eleições fossem hoje, ninguém votaria nele, nem a mulher dele (risos), mas ele tem ajuda internacional.

Do que você mais gosta no Brasil?
Das praias e da comida – apesar de o principal prato ser arroz e feijão, que também tem na África. Também gosto muito de feijoada e acarajé. Moro em São Paulo, mas já viajei para o Rio de Janeiro e o Nordeste, onde a comida é diferente e o povo também. A Bahia é como a África, onde o povo é mais aberto. Em São Paulo, todo mundo está sempre atrasado (risos). No meu país, norte e sul é a mesma coisa. Gostei muito dessa diversidade do Brasil.

Steve Kikudi: “Se um dia eu chegar a trabalhar na ONU, vou querer que a comunidade internacional puna o presidente ditador de um país, como no caso do Congo, e não o povo e a economia, que são os que mais sofrem.”

Do que você não gosta no Brasil?
Do preconceito. Morei em um país no qual antigamente havia o apartheid [segregação entre negros e brancos], a África do Sul. Mas, depois disso, a gente se esforçou para que negros e brancos pudessem participar das decisões da sociedade. No Brasil, a diversidade é positiva, mas o país não sabe lidar com ela. Nos hotéis onde eu fiquei, sempre havia um branco na recepção. Comecei a questionar: “Será que não tem um negro com competência para ser recepcionista?”. Claro que sim, mas não tem uma política pública no Brasil para ajudar a comunidade negra a se inserir na sociedade. E o mesmo acontece com os indígenas.

Como você avalia a crise de refugiados?
Ninguém vai viver em outro país só pela vontade de mudar. Muita coisa aconteceu para uma pessoa deixar o país onde nasceu para morar em outro. Eu, por exemplo, vivia bem no Congo, mas fui obrigado a deixá-lo por causa da perseguição.

Você pretende voltar um dia?
O Congo não vai mudar. Lá não se respeita a dignidade do ser humano e os presidentes vão querer sempre permanecer no poder. É uma história que se repete. Decidi fazer uma carreira internacional, em organizações internacionais, para mudar essa política sobre os países africanos. Se um dia eu chegar a trabalhar na ONU, vou querer que a comunidade internacional puna o presidente ditador de um país, como no caso do Congo, e não o povo e a economia, que são os que mais sofrem.

Saiba mais sobre o Congo
Segundo país mais rico da África, o Congo é palco de conflitos políticos e econômicos que já deixaram cerca de 6 milhões de mortos e desaparecidos. Os congoleses formam a segunda maior população de refugiados no Brasil (a primeira é composta por sírios). De acordo com o Comitê Nacional Para os Refugiados (Conare), órgão do Ministério da Justiça responsável pelo reconhecimento dessas pessoas no Brasil, do total de habitantes em situação de refúgio por aqui, 13% vêm do Congo. Segundo dados da ONU, o país é o que tem a terceira maior população deslocada globalmente, com 5,1 milhões de congoleses forçados a deixar o local.

Quem são os refugiados
por Giovanna C., 11 anos
São pessoas perseguidas por conta da raça, nacionalidade, opinião política… Elas são obrigadas a deixar seu país de origem e buscar refúgio em outro por causa da grave e generalizada violação de direitos humanos.

Quer visitar a redação do Joca ser o editor mirim convidado da próxima edição? Escreva para joca@magiadeler.com.br.

1 comentário

  1. South Hills Middle School says:

    ola oi ola oi ola oi

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